PARIS, TEXAS - Wim Wenders, 1984 - 147 min.


A cena de abertura de “Paris, Texas” é uma das mais bonitas e simbólicas que eu já vi. Nela um deserto belíssimo se descortina na frente de um homem vestido de calça e paletó, e com um boné vermelho na cabeça. Ele para e observa, possivelmente lembrando-se de quanto já andara e ainda, quanto caminho ainda lhe restava para completar uma travessia que a principio parece inominável. Uma águia pousa e o observa. O homem bebe o que lhe resta de água em seu galão e depois segue viagem, a pé. Localizado por sua família, em uma vila minúscula em uma estrada do Texas, Travis (Harry Dean Stanton) estava sumido havia quatro anos e quando seu irmão lhe encontra e o interroga sobre o acontecido Travis simplesmente olha para o horizonte, como se a resposta para aquela pergunta estivesse ali em algum lugar e ele precisasse encontrá-la para, então, esclarecer tudo. Como fica patente no evidente desconforto de seu irmão Walt (Dean Stockwell) nesse reencontro, aquele andarilho se tornou em resumo um “bicho do mato”: está magro, com a barba enorme, e também não faz esforço nenhum para se comunicar. Mas ao que tudo indica Travis não era assim, e o filme vai desenrolando lenta e calmamente a explicação para essa transformação tão radical.

Não é uma explicação simples, e vem acompanhada por uma boa dose de solidão. Travis reencontra Hunter, o filho de oito anos que abandonou ainda muito pequeno e com ele inicia uma fascinante luta de desbravamento. Hunter não o enxerga como pai, já que a única lembrança que têm de um é a presença de seu tio, mas Travis conhece muito bem as armas para conquistar a amizade e a admiração dele. Quanto retorna para esse convívio social e familiar, o insular exílio do personagem principal cai por terra e ali mesmo se descobre um homem soberbo, que apesar de não ser belo, e de não ter dinheiro algum consegue tornar plenamente crível o fato de sua ex-mulher ser uma ofensa de tão bonita. Harry Dean Stanton é um ator hipnótico, de capacidade tremenda. É profundo, charmoso e muito simples.

A certa altura do filme percebe-se que Travis aceitou retornar ao “mundo” que conhecia para acertar as contas com o passado e corrigir os erros que cometeu. Vem daí a decisão de procurar Jane, sua ex-mulher e mãe de Hunter, vivida por Nastassja Kinski. Jane é encontrada trabalhando em um clube privativo de Houston, como uma espécie de call girl. Ela fica em uma cabine dividida por uma parede e uma janela envidraçada, onde não se pode ver a pessoa que está do outro lado e onde o único elo de comunicação é um interfone.

Esse é um dos momentos mais belos que já vi em um filme. Travis começa a contar sua história, sem que Jane, no entanto, perceba até que se aproxime dos momentos em comum com o que ela viveu. A interpretação de Nastassja é o ponto máximo aqui. Com uma beleza angelical e desconcertante, ela leva sua personagem aos poucos a maturidade, depois de muitas lágrimas e uma volta terrível a lembrança daquele passado.

“Paris Texas” é um desses dramas riquíssimos. Uma história simples de pessoas simples, encontradas no momento mais crucial de suas vidas, e que se surpreendem com o que lhes acontecem. O filme tem uma trilha-sonora incisiva, com o violão sempre introduzido àquelas cenas mais marcantes.



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