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UMA JANELA PARA O AMOR (A ROOM WITH VIEW – JAMES IVORY/1986)

Dos mais belos romances com cenário vitoriano e filme que me agradou um pouco mais que “Retorno a Howard´s End”, embora os dois compartilhem o âmago a abordagem é completamente diferente, saindo-se este com uma melhor economia narrativa. Talvez a diferença seja na caracterização psicológica, pois “Howard´s End” torna-se muito mais pesado de se ver do que “Uma Janela Para o Amor”, ainda que continue uma obra grandiosa da dupla Ivory/Merchant. O que primeiro me chamou a atenção para o filme foi Helena Bonham Carter, que por sua vez despertou meu interesse através de sua indicação para o Oscar pelo desempenho em “Asas do Amor” de 1997, uma adaptação do romance de Henry James que eu ainda não assisti por não estar disponível em DVD, tendo sido lançado por aqui apenas em VHS. Em seguida me vi obrigado a assistir por causa de Julian Sands, um ator de presença muito forte e o qual havia visto em uma participação em “Mistérios e Paixões” de Cronenberg. “Uma Janela para o Amor” não me decepcionou nem um pouco. Embora Bonham Carter ainda se mostre muito verde neste trabalho, sua presença algo singela tem o tom certeiro de ingenuidade e paixão intrínseca da trama, e seu desempenho encaixa perfeitamente no de Julian, que têm um porte romântico invejável e que deveria ter sido uma das grandes estrelas masculinas da década de 80 e 90.

O filme começa em Florença, quando a personagem de Bonham Carter, Lucy Honeychurch chega com a prima Charlotte Bartlett (Maggie Smith), uma mulher bem mais velha para uma semana de turismo na pitoresca cidade italiana. Ambas são hospedadas em uma pensão chamada Bertolini, onde também estão outros viajantes ilustres de passagem pelo lugar, incluindo uma escritora de pequeno prestigio chamada Eleanor Lavish (um dos primeiros trabalhos de destaque de Judi Dench nos cinemas). Lucy se esvai em frustração quando constata que a vista de seu quarto dá para uma rua pouca movimentada quando deveria ser uma janela com visão privilegiada da cidade e esse será o assunto do jantar, quando ambas reúnem-se aos demais hospedes em conversas prosaicas. Na mesa está, além da escritora Eleanor, também o Sr. Emerson (Denholm Elliot) e seu jovem filho George (Julian Sands), também eles ingleses. Enquanto Charlotte observa cada defeito do lugar, sempre trazendo a tona o assunto da ausência de uma vista digna do quarto que coube a elas, Lucy sonda os outros hospedes, detendo seu olhar rapidamente em George.

O Sr. Emerson, percebendo o incomodo da nova hospede, oferece seu quarto em troca do delas, já que o dele possui a visão turística que elas tanto valorizam. Charlotte, em sua compostura típica e sua neurastenia vê em tudo um ultraje, mas termina aceitando a troca em favor do conforto de Lucy. Quando a mudança e feita e a moça acorda no outro dia e abre essa janela, parece estar se abrindo também para um novo mundo que se descortina, nenhuma cena resume melhor seu estado de espírito quanto está. A passagem por Florença parece transformar tanto Lucy quanto sua prima mais velha e reprimida. Na companhia da progressista e inventiva Eleanor Lavish, Charlotte irá aos poucos descobrir nela mesma uma leveza insuspeita, permitindo-se levar pela beleza do lugar e da imprevisibilidade da viagem, mas nunca deixando de visar o bem estar de sua parenta mais nova, que ela tenta proteger da melhor forma.

O encontro entre Lucy e George é quase inevitável. Eles se encontram na cidade, quando a moça presencia uma briga de rua que termina em morte e encontram-se nos campos próximos á cidade, quando, durante um piquenique com o grupo de ingleses da pensão Bertolini ela vai procurar Charlotte e encontra George que então lhe dá um beijo impulsivo e apaixonado – ao qual ela não reage de maneira alguma. Ali, já fica obvio que para uma mulher vibrante e de personalidade marcante como Lucy somente um homem como George para lhe completar. George é livre, não tem subterfúgios e transpira carinho e amor, tanto que após o beijo em Lucy ele sai correndo pela chuva que cai no campo, maravilhado pela beleza do que aconteceu.

De volta á Inglaterra, Lucy parece querer proteger a si mesma dos próprios sentimentos ao ficar noiva de Cecil Vyse (Daniel Day Lewis), um homem que nada tem haver com ela, um tipo que enverga uma atitude burguesa e uma mediocridade latente. Há de se reconhecer o grande ator que é Daniel Day Lewis ao encarnar com gosto um personagem antipático e simplório do começo ao fim. A relação de Lucy e Cecil é tão improvável e obsoleta que sua própria família parece aceitar a união apenas por educação, já que o rapaz não é um mal partido, mas também não chega a ser nada além de um sujeito previsível e pomposo. Ou seja, Cecil é uma opção obvia. Alguém que responde perfeitamente ao rigor formal de sua sociedade e que não rebate nem quando é alvo de deboche. Mas é deplorável perceber o quanto a escolha de Lucy ao ficar noiva dele reflete seu medo de se entregar ao imponderável, ao sentimento fulgurante que é um amor real.

George resurgirá na vida dela quando o Sr. Emerson, o pai deste aluga um chalé na mesma vila em que fica a propriedade dos Honeychurch.e passa a fazer parte do convívio social e familiar de Lucy, fazendo com que se crie uma situação de tensão sexual que o expectador torce para que se concretize. Daí advém à beleza do trabalho de James Ivory e da roteirista Ruth Prawer Jhabvala (que ganhou o Oscar pelo roteiro de Howard´s End), ao narrar essa luta interna de Lucy e conduzir com humor leve os costumes dessa sociedade que a circunda – a cena em que George toma banho e brinca com Freddy, irmão de Lucy e o Reverendo Beebe (Simon Callow), é muito engraçada, além de bonita, ao mostrar homens livres de qualquer amarra que a sociedade impõe. Essa escolha pelo tom romântico e paródico é o que faz de “Uma Janela para o Amor” um filme para ser apreciado, bem como as atuações deliciosas do par central, de Maggie Smith, e de praticamente todo o elenco, que adere á direção de arte impecável e á musica de Richard Robbins. Todos esses ingredientes compõem uma obra que emociona, diverte e entretém, sem decepcionar.

O VÔO DO NAVEGADOR (Flight of the Navigator - Randal Kleiser/ 1986)

A década de 80 será lembrada por um filme que povoa até hoje o imaginário de milhões de fãs. Dirigido por Steven Spielberg, “ET – O extraterrestre” foi imortalizado por sua narrativa doce e pela mensagem pacifica de esperança e amizade. Um bom filme, sem duvida, mas que por razões sentimentais fica aquém de “O Vôo do Navegador”, filme de 1986, dirigido por Randal Kleiser, diretor de “A Lagoa Azul” e Grease”, tremendamente inventivo e econômico em seu trabalho nas telas. O elenco desta aventura é mais enxuto que o de “ET” e a carga dramática maior, envolvendo o expectador em situações comoventes e viscerais. Aqui não se utiliza uma criatura física como protagonista, mas um ser de dimensões tecnológicas, dotado de inteligência, emoções e de uma grande dose de humor. No centro do filme está David Freeman (Joey Crammer), um pré-adolescente da Florida, que mora com os pais e o irmão caçula em uma casa próximo ao mar
 
Quando o filme começa é 4 de julho, dia da independência e David e sua família está voltando de uma competição de lançamento de frisbee para cães, e o garoto tenta desesperadamente fazer Bruzer, o cachorro da família, se tornar um animal talentoso. O irmão caçula dele, Jeff, percebe tanto a frustração do garoto com o cão, quanto o sentimento que o mesmo parece nutrir por uma menina da vizinhança e aproveita a oportunidade para espinafra-lo. Os pais de David são pessoas amáveis e sensatas, e criam os filhos com liberdade, muito carinho, mas também conselhos. É uma família feliz e o roteiro trata de cravar esse fato logo nessa pequena introdução para que o choque dos eventos futuros seja mais marcante para o expectador.

Chegando em casa depois da competição de frisbee, Jeff pede para brincar pelas redondezas com um amigo e David vai pedir conselhos ao pai sobre sua atração por Jennifer, a menina da qual ele gosta. Mais tarde a família decide sair de barco para lançar os fogos de artifício que haviam comprado e jantar. A mãe de David, Helen (a ótima Verônica Cartwright, de O Oitavo Passageiro e As Bruxas de Eastwick) pede ao filho que vá procurar o irmão, pois não quer que o pequeno ande sozinho no bosque próximo a residência deles. No bosque, David tropeça e cai num abismo, desmaiando por alguns segundos devido à queda. Quando acorda e toma o caminho de volta para casa ele se surpreende com uma estranha que abre a porta, e informa que ele deve ter errado de endereço. Mas o lugar é o mesmo, o tempo é que mudou, já que no período curtíssimo em que David ficou desacordado, passaram-se 8 anos.

Acompanhado da policia, que parece atônita com o caso do menino, já que nos registros ele está declarado legalmente morto, David é questionado sobre em que ano eles estão e quem é o presidente no exercício. As respostas não batem com a realidade dos fatos e a confusão na mente do menino só piora quando ele reencontra os pais, envelhecidos pelos anos de angustia e sofrimento pelo desaparecimento do filho. Para ele, o tempo não passou, mas todo o mundo a sua volta está diferente, e até seu irmão caçula agora é mais velho que ele. É uma situação surpreendente por si só, mas a explicação é muito bem respondida ao longo do filme.

O Vôo do Navegador” também funciona como suspense em sua primeira parte, quando médicos e cientistas tentam descobrir o que houve com David e as respostas vem embaralhas. Existe disparidade entre o que o menino diz e lembra e o que seu subconsciente transmite. O cérebro dele envia aos computadores as imagens de uma nave e vários dados criptografados. A nave, coincidentemente está de posse da NASA e a empresa logo trata de contatar David e sua família para descobrir a relação de ambos. Cansado da falta de respostas e dos transtornos que os acontecimentos tem lhe causado, David revolta-se e decide fugir, sendo guiado por uma conexão mental até o OVNI.

A nave é um modelo Trimaxion, do planeta Phaelon, uma forma avançada de vida, que vive centenas de anos luz da terra e que abduziu David, no instante em que ele havia caído no abismo do bosque, para estudar seu cérebro. A nave viajava por galáxias resgatando espécies que corriam risco de extinção e transferiu para a mente do garoto milhares de informações codificadas, importantes para a navegação da maquina. David será, então, O Navegador, a pessoa responsável por devolver á nave o que ela precisa, ganhando em troca o direito de voltar para seu tempo, e para a família que conhecia.

Tudo em “O Vôo do Navegador” soa familiar e encorajador. Desde o amor imenso de David por sua família e desta por David. Da relação antes infantil e depois repleta de maturidade e compreensão entre ele e o irmão, e dentro da nave a amizade admirável que o menino desenvolve com as criaturas que nela existem, inclusive a própria nave, que parece ter vida própria e que é chamada carinhosamente de Max. Com respeito por “ET – O extraterrestre”, um ótimo filme desde sempre, mas o “Vôo do Navegador” é superior em todos os aspectos técnicos e dramáticos, e ficará na minha memória como símbolo de sua década e de muitas outras, por sua beleza desbravadora e jovem. 

 



Flashdance - What a feeling



9 1/2 Semanas de Amor


Filme que marcou uma legião de apaixonados e uma obra muito lembrada hoje em dia graças sua musica tema “Slave to Love” interpreta por Bryan Ferry e uma das minhas canções favoritas – música de motel, por assim dizer – que ainda embala corações saudosos. Contudo, não é um filme que entusiasma, não é romântico e nem justifica a fama que lhe cabe.


Em palavras curtas a única coisa concreta dessas semanas de amor é a beleza de Kim Basinger e o charme cafajeste de Mickey Rourker. Mas ambos não se conectam de uma maneira que convença a platéia. A única cena que realmente vale o filme é aquela em que a personagem de Kim aparece sob a chuva, sorrindo para Mickey. É uma seqüência rápida, mas a única que consegue realmente fazer o coração bater mais forte. “9/2 Semanas de Amor’ possui sim, uma intensidade sexual e uma chama ardente, mas são poucos os quadros em que o diretor Adrian Lyne os utiliza bem.

Além da cena mencionada existe apenas mais uma que vale o filme todo e que está no final, quando Elizabeth (Kim) entra em um clube prive e assisti á um show de sexo ao vivo ao lado de vários homens. É ali que o coração do filme se encontra e onde ele termina abruptamente.

Crimes do Coração (Crimes of the Heart,

CRIMES DO CORAÇÃO (CRIMES OF THE HEART)


Não vou esconder que fiquei frustrado a primeira vez em que assisti a este filme. Eu esperava uma comédia arrasadora, com vários momentos inusitados e um banho de risos por parte do trio principal de atrizes. Afinal, foi um filme indicado ao Oscar e a uma dezena de outros prêmios e que tinha inclusive dado um Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia para Sissy Spacek. As primeiras impressões são importantes, pois a partir delas é que refletimos a fundo e chegamos a conclusões secundarias. No caso de “Crimes do Coração” a primeira impressão foi um banho frio, geladíssimo. 

Porém, como muitas coisas em nossa vida, precisamos de certo tempo e espaço para entender os detalhes. É de se levar em conta que o filme tem uma dezena de defeitos e possivelmente o mais obvio é a direção desajeitada de Bruce Beresford e o roteiro algo meloso e pouco inspirado de Beth Henley. Aqui há carência de tudo, e passamos metade do filme tentando entender a que gênero ele pertence. Eu me decidi pelo drama.
Lenny Magrath (Diane Keaton) já beira os quarenta anos, viveu para cuidar do avô e provavelmente por não ter tido quem lhe indicasse o caminho se tornou uma mulher ao mesmo tempo instável, infantilizada e tremendamente frágil. Mora em uma cidadezinha que é um cafundó, enfiada no interior do interior dos Estados Unidos e sofre constantes alfinetadas de Chick (Tess Harper, uma das boas coisas do filme), sua prima muito cansativa cujo passatempo predileto e se intrometer em sua vida. Lenny é tão solitária que não tem com quem comemorar o próprio aniversario e na falta de um bolo, coloca uma vela em cima de um biscoito e que canta parabéns sozinha, na cozinha de casa. 
A ocasião marca a volta de Meg (Jessica Lange), que foi embora dali a muito tempo para tentar a carreira de atriz e cantora. A cena da chegada de Meg, e seu olhar quando ainda está no ônibus é um colosso. Percebe-se uma gama de emoções perpassando o rosto dela, desde frustração, amargura, até nostalgia e uma alegria inominável de retornar ao lar. Meg é a irmã do meio de uma família que há muito tempo se esfacelou. 
A terceira e mais jovem das irmãs é Babe (Sissy Spacek) que foi presa, acusada de ter atirado no marido. Babe parecia à única com uma vida plena para chamar de sua, mas acabou se tornando a mais perdida do trio. Oscila entre momentos de alegria e outros de desespero profundo, não sabe o que fazer com a culpa pelo relacionamento adultero com um garoto negro de 15 anos, e pelo fato de ter sido esse o motor de seu ato extremo e da sua responsabilidade diante do estado do marido. 
Nesse cenário de perdas, reencontros e rupturas as irmãs tentarão acertar as contas com o passado, com aquela solidão que sempre as acompanha – e que nasceu do fato da mãe delas ter cometido suicídio – e com o preço a pagar pelas escolhas feitas ou não feitas. É de uma profundidade intensa, mas que infelizmente não é aproveitada pelo diretor e que o roteiro só faz diluir em situações desnecessárias. 
Não é de se estranhar, portanto, que o elenco carregue o filme nas costas. Diane Keaton está muito bem como a atrapalhada e esperançosa Lenny, apesar de eu contar com algumas cenas dela particularmente canastras. Jessica Lange dispensa comentários. Sua Meg é tão apaixonante e espontânea que conquista instantaneamente. Já Sissy Spacek é um deslumbre. Sua grande cena chega quando o marido anuncia por telefone que pretende interná-la em manicômio e ela desnorteada tenta se matar de diversas formas, sem ter sucesso em nenhuma delas. Essa cena salva o filme. Acredito que por essa seqüência Spacek tenha chamada a atenção da Academia e recebido a Indicação ao Oscar. 

O REGRESSO PARA BOUNTIFUL

O REGRESSO PARA BOUNTIFUL (the trip to bountiful)


Uma resenha é extremamente limitada para se resumir todas as possibilidades que um filme como “O Regresso para Bountiful” guarda. Um drama tremendamente inventivo e que é marcado do inicio ao fim com o signo do saudosismo. É um daqueles trabalhos de parceria entre atores e equipe e que zelosamente resulta em êxito, e que faz crer que a década de 80 não foi totalmente perdida para o cinema. Possui um enredo galgado na esperança da protagonista de encontrar um elo com seu passado, algo concreto que ela consiga redescobrir e ao qual precisa se apegar para continuar vivendo. 

Carrie Watts é uma doce senhora que já beira os setenta anos e mora com o filho Ludie (no filme o excelente John Heard) e com a nora Jessie Mae (Carlin Glynn) em um apartamento pequeno em Houston, na década de 40. Irrequieta e insone, Carrie tem uma relação bem próxima e permeada de carinho com o filho, mas repudia a nora e por ela é repudiada, apesar da fachada de educação com que ambas se tratam, mas que não demora a ser demolida ao menor sinal de enfrentamento. Ludie por sua vez, sempre se vê na condição de apaziguador daquela disputa que já perdura há anos. Não quer contrariar a mulher para que ela não venha a deixá-lo, e não quer magoar a mãe porque a ama imensamente. Mas fica patente, nesse começo de filme, que essa tensão familiar pode custar muito se vier a evoluir, já que Jessie Mae é intempestiva e Carrie já dá sinais de uma tristeza que com pouco esforço pode vir a se tornar depressão. 
A velha senhora decide, então, tentar uma nova escapulida de casa para retornar a sua terra natal, Bountiful, vilarejo de quem quase ninguém ouviu falar, um lugar esquecido no tempo e no espaço. Ludie parte logo a sua procura, mas é dissuadido por Jessie Mae a esperar até que a mãe apareça, o que não acontece. Carrie já está tão longe nessa jornada que é improvável que retorne em uma ou duas horas e porque é movida por uma aflição latente e um senso da própria mortalidade que a faz seguir adiante haja o que houver. No ônibus rumo a Harrison, cidade vizinha a Bountiful, Carrie faz amizade com Thelma (Rebecca De Mornay, muito jovem e bonita), uma moça que esta retornando para casa dos pais, pois seu marido viajou a trabalho. 
Aos poucos Carrie vai deslindando seu passado e as magoas de sua vida, quase todas relacionadas ao seu passado em Bountiful. Ela segreda a Thelma seu amor por um homem cujo pai era inimigo do seu e com quem foi impedida de ter uma vida, confessa sua falta de amor pelo falecido marido e o fato triste de ter perdido dois filhos quando estes ainda eram muitos pequenos. Até que o ônibus chega ao seu destino e ambas têm de se despedir. A cena lembra o que muitas vezes ocorre durante nossa vida, quando conhecemos alguém corriqueiramente e nos identificamos com essa pessoa, que da mesma maneira rápida com que surgiu, desaparece de nossas vistas.
É quase impossível não ser atingido pela doçura e franqueza deste filme. Com Carrie cada vez mais próxima de seu destino e tão ansiosa para chegar até ele. Sua jornada pareceu para mim uma analogia a odisséia da vida de um ser humano, da necessidade de quando se chega a velhice e já as portas da morte de se agarrar a lembrança do que se teve de melhor na vida. É de esmagar o coração ver Carrie suplicando ao xerife local para deixá-la seguir caminho apesar das ordens que seu filho deu de mantê-la segura. E sempre que ela recua, apertando o peito e arfando com o esforço para se manter integra e no controle de si nos lembramos que o que ali se vê já é a reta final da vida de uma pessoa, o entardecer. 
Mas se há algo de riquíssimo no trabalho do diretor Peter Masterson é o de fazer essa jornada não apenas nostálgica, mas também alegre e inspiradora. Muitas dessas qualidades advêm do desempenho sem rival de Geraldine Page. Se hoje só pensamos em Meryl Streep ou Kate Winslet como sinônimo de grandes atrizes é por que muitos não conheceram o trabalho incrível dessa nova-iorquina, considerada a dama do teatro americano e que levou o Oscar tardio e merecido de Melhor Atriz por este desempenho, após já ter concorrido sete vezes em ocasiões anteriores, quatro delas como coadjuvante. 
É de Geraldine Page, por exemplo, um dos desempenhos mais demolidores e impecáveis da década de 70, no drama de Woody Allen “Interiores”. Não há como se esquecer da cena final, em que a personagem de Geraldine caminha rumo ao mar, para ser engolida pelas ondas.
“O Regresso para Bountiful” é também uma espécie de despedida triunfal de Geraldine Page que um anos depois de levar o Oscar morreria de infarto enquanto representava uma peça na Broadway. Este ultimo trabalho, portanto, é também sua herança para os admiradores de seu talento. Grande talento.